Quarta-feira, 26 de Julho de 2006

A casa sagrada (uma lulik) de Timor

A LINGUAGEM SIMBÓLICA  DA UMA LULIK (CASA SAGRADA)

EM TIMOR LESTE

(Um estudo semiótico)

 

 

  1. Introdução

A Semiótica é uma ciência do símbolo que se desenvolve na área de linguística. Mas, recentemente, muitas cientistas utilizaram-na como base de aproximação a outras disciplinas, incluindo a arquitectura tradicional. A perspectiva semiótica como estudo é cada vez mais usada pela arquitectura, porque o objecto desta é um facto concreto como símbolo de uma determinada cultura. É por isso que, segundo Mangun Wijaya (1995), construir uma casa é como comunicar com o espaço e o tempo, com a recta e a área, com matérias de construção, bem como com o lugar da construção. Por sua vez, a arquitectura encarada como um sistema de expressão de um conjunto de símbolos, aproxima-se do estudo da semiótica.

 

Mangun Wijaya (1995:8) sublinhou ainda que a arquitectura tem de respeitar e cumprir as regras e os valores culturais dum povo, isto é, utilizar a linguagem da arquitectura com toda a responsabilidade e, se for possível, embora não seja fácil, usá-la para todas as pessoas, aproximando-a da poesia. Construir uma casa sagrada (uma lulik) em Timor-leste é comunicar com todas as componentes da casa, comunicar com o formato, com a composição da casa, etc. A arquitectura não necessita apenas da arte e das técnicas da construção, mas igualmente das convenções culturais de uma determinada comunidade. Cada construção tem a sua característica que marca os seus habitantes ou o clã duma determinada comunidade. Assim, merecem atenção a qualidade, a dignidade e a filosofia comos fontes de inspiração ou de expressão da arquitectura.

 

De acordo com Mangun Wijaya, o construtor, ao construir uma casa, primeiramente, tem que dar um breve olhar sobre os símbolos que ainda permanecem no ambiente que a rodeia. Por outro lado, Sudharta, (1984) acrescenta os seguintes pontos: a casa sagrada (uma lulik) tradicional é considerada como o lugar para muitas actividades da comunidade tradicional; a arquitectura tradicional deve ser encarado como indicador da identidade cultural das suas comunidades; e a arquitectura tradicional em Timor-leste tem alguma coerência com a cultura de outras culturas que desenvolveram ao longo dos séculos. O problema essencial é como respeitar a identidade cultural e a tradição nas novas construções.

 

 Em Timor-leste, sobretudo o étnico tétum, uma lulik é vista não só como o lugar para guardar os objectos sagrados, mas também como um sítio para as reuniões e as actividades dos ritos tradicionais, como o tunu – «um acto de matar os animais para oferecer ao kukun», os ancestrais invisíveis.

 

No contexto da arquitectura cultural, Timor-leste tem muito património arquitectural tradicional e, embora alguns destes restos patrimoniais ainda permaneçam, alguns já desapareceram. Cada uma das várias etnias tem as suas características tradicionais de arquitectura, sendo elas que distinguem uma etnia da outra. Como um produto de cultura, a arquitectura deste povo está condensado na linguagem da arquitectura que se manifesta nos símbolos da cultura, ou seja, cada uma destas arquitecturas tradicionais apresenta as suas semióticas. Este património do povo de Timor-leste está espalhado por todo o território, e tem uma qualidade cultural de alto nível, pelo que é preciso desenvolver estratégias para protegê-lo como identidade cultural do povo Timorense. Assim, a arquitectura ainda hoje pode ser vista como um campo de investigação, aberta ao estudo, nomeadamente ao estudo semiótico da arquitectura timorense.

 

2.O problema

De acordo com Umberto Eco (1977:182), a principal barreira da semiótica encontra-se no facto de a maioria dos objectos de arquitectura serem incomunicáveis, ou seja, não serem produzidos para a comunicação, mas serem sobretudo acentuadas as suas características funcionais. Como é óbvio, todas as pessoas o sabem, o telhado da casa tem como função proteger da chuva e do calor, a porta é para entrar e sair. As funções das várias repartições da casa são vistas em termos pragmáticos, mais do que comunicacionais.

Este trabalho centra-se sobretudo na questão das áreas da arquitectura tradicional. Para tal, temos de nos centrar primeiro sobre o que é semiótica e sobre as suas teorias. Uma outra questão importante neste trabalho é o de reflectir sobre como o estudo da semiótica consegue formular uma linguagem simbólica que possa ser utilizada para a casa sagrada – uma lulik – «casa tradicional» do étnico tétum em Timor-leste.

 

3.O conceito de Semiótica Arquitectura

De acordo com Sudjiman (1992:vii), o termo semiótica, etimologicamente de origem grega, semeion, significa símbolo. Na nossa vida quotidiana conhecemos muitos símbolos. Os sinais de trânsitos são símbolos, um piscar dos olhos, uma dada bandeira etc. A estrutura de uma poesia, de um filme, os edifícios, até o canto das aves, todos podem ser interpretados como símbolos. Um filósofo Americano, Charles Sanders Peirce, sublinhou que nós só podemos pensar com o instrumento do símbolo, ou seja, não há comunicação sem símbolos.

 

Semiótica (ou semiologia) é definida na Enciclopédia Portuguesa como literatura ou ciência que estuda os sinais ou sistemas de sinais utilizados na comunicação e o seu significado (incluindo a língua), e como utilizar estes sinais. Os ramos desta ciência são a Pragmática (relação entre os sinais e como utilizar estes sinais), a sintaxe (relação entre as palavras com os seus símbolos) e a semântica (relação entre o significado dos símbolos). Na Semiótica acentua-se que o significado natural é por vezes visto como o resultado de convenção social, estudando e analisando igualmente a cultura como uma série de sistemas do símbolo.

 

Van Zoest (1992:6) apresentou uma definição mais completa: que semiótica é um estudo sobre o símbolo e a relação entre outros códigos, entre o comunicador e os receptores. De acordo com Saussure, semiótica é a ciência dos símbolos de uma determinada sociedade; enquanto para Jhon Locke, a semiótica é um modelo interdisciplinar para analisar os fenómenos de distintas áreas, que surge no século XIX e nos meados do século XX, como consequência das obras de Saussure e de Peirce. Este estudo acentua o pragmatismo e a lógica. O seu principal contributo para a semiótica é o surgimento das categorias de três tipos do signo: 1) ícone, 2) índex, (referência) 3) símbolo (que tem ligação com a convenção social, por exemplo: os sinais de trânsito). Peirce acrescentou ainda que os símbolos nunca têm uma definição permanente, porque os códigos e os seus significados se modificam dependendo da interpretação que é feita.

 

A Semiótica arquitectural é um ramo da semiótica da comunicação visual, que tem uma ligação estreita com a estética (Istianto, 1990:38). Para os semiotistas, a função da arquitectura não é limitada à sua função usual, mas também multifuncional.

 

Mukrovsky (1977) distingue 4 funções da arquitectura, confrontando-as com as funções estéticas: 1) função prática directa, 2) função histórica (que tem a ver com os modelos anteriores), 3) função social-económica, e 4) função individual (em relação com o seu estilo). Estas 4 funções são interdependentes. O trabalho da arte é definido como um signo com função comunicativa e autónoma. A base de estética estrutural de Mukarovsky é a sua teoria das funções semióticas. Uma função, segundo Mukarovsky (1966), é o modo de auto-realização de um mundo externo. A interacção do sujeito com o seu meio ambiente pode ser directa ou indirecta, quer dizer, por meio de uma outra realidade.

 

Segundo Eco, o homem vive num mundo de signos, porque ele vive numa sociedade, e a sociedade tradicional não pode viver se não tiver elaborado os seus próprios códigos, os seus próprios sistemas de interpretação dos dados materiais. A semiótica não se preocupa com o estudo de um particular tipo de objecto comum. Ela visa o relacionamento entre a estrutura e a interpretação do texto e tem como objectivo a investigação, não só do elemento linguístico, mas também de toda a manifestação da linguagem como um todo significativo que representa a comunicação entre os homens. Eco (1997) apresenta três tipos de código da arquitectura 1) código técnico, 2) código sintáctico e 3) códigos semânticos.

 

Segundo Umberto Eco, a cultura pode ser completamente estudada sob uma perspectiva semiótica, mas as entidades culturais podem também ser consideradas sob pontos de vista não semióticos. Por exemplo, um carro pode ser um signo que indica o estatuto social, mas pode ser visto igualmente num nível físico ou mecânico. A semiótica de acordo com Eco, não se preocupa com estes níveis, mas sobretudo com o que pode ser tomado como signo. Um signo é tudo aquilo que pode ser tomado como substituindo significativamente outra coisa. Esta outra coisa não precisa necessariamente de existir realmente em algum lugar no momento em que o signo a representa. A semiótica é o estudo de códigos e um código tem a sua base numa convenção cultural. Portanto, o critério de um código é a sua convencionalidade.

 

 4.A linguagem simbólica da casa tradicional do étnico tétumA construção da casa tradicional é uma imagem, a luz de uma reflexão psíquica e do sentimento dos seus habitantes. Assim, também a construção das casas tradicionais é uma linguagem simbólica da humanidade, bela, e impressiva de quem a constrói; a simplicidade e a naturalidade devem ser atractivos para todos os seres humanos. A casa não consiste apenas no signo da função, mas sobretudo como o espelho da linguagem humanística de uma determinada sociedade.

 

Para compreender a linguagem simbólica da arquitectura tradicional do étnico tétum em Timor-leste, exige-se a competência do conhecimento da filosofia do timorense tradicional. Sem esta competência é difícil conhecer exactamente a parte artística da arquitectura tradicional de Timor-leste. É necessários, pois, saber e aprofundar o conhecimento sobre a nossa capacidade de conhecimento antropológico para conhecer uma obra artística da arquitectura tradicional de uma determinada sociedade.

 

O homem é designado por “animal simbolicum”, porque, ao longo da sua vida, elenão escapa dos símbolos que são produzidos. Em termos de comunicação, o homem utiliza os símbolos e é por isso que ele se desenvolve mais rapidamente do que os outros mamíferos. Subjacente a essa produção de símbolos está o seu raciocínio lógico – uma das competências dos seres humanos –.

 

A construção da casa tradicional de Timor-leste, como uma das formas de produção de obras culturais humanas, que também consiste em símbolos, tanto nas formas reais, como nas formas invisíveis (escondidas).

 

Como um produto cultural, a casa tradicional de Timor-leste é uma parte das características da arquitectura da sociedade mundial. Em diferentes sociedades e culturas são também diferentes os modelos e os símbolos de cada casa tradicional. Existem vários modelos de casas tradicionais, das formas mais primitivas, às tradicionais clássicas e até às formas mais modernas e pós-modernas. Cada uma destas formas tem as suas características e os seus símbolos, dependendo das respectivas convenções da sociedade. Este trabalho acentua sobretudo a linguagem simbólica da arquitectura tradicional de Timor-leste, em especial do étnico tétum.

 

5. Os signos simbólicos da casa tradicional

Segundo Umberto Eco, o homem vive num mundo de signos, porque ele vive numa sociedade que está condensada pelos símbolos. Assim, a cultura do homem é construída por um simbolismo, isto é, o homem não pode viver se não elaborar códigos e sistemas de informação dos dados materiais. Ao longo da história humana, o simbolismo acompanhou sempre os actos do homem, tanto as atitudes, a língua e a ciência, como a sua religião. O homo sapiens, segundo Eco, utilizou, de início, o objecto símbolo e a memória para guardar informações.

 

Segundo Peirce, o índice está fisicamente conectado com o seu objecto, ambas formando um par orgânico. Por exemplo, um desenho do crocodilo é um objecto, ou seja, algo que simboliza uma outra coisa. O som do “nowa” simboliza a entrada da estação seca, e o “aquitou” simboliza o final dessa estação e a chegada da estação das chuvas. Assim também o “uma lulik”, como um produto da cultura, apresenta uma complexidade de funções. Apresentaremos, em seguida, a função simbólica da casa tradicional “uma lulik” do étnico tétum em Timor-leste.

 

5.1. O símbolo da unidade e amizade da sociedade.

Uma lulik é o símbolo da unidade social dos seus habitantes. Todos os componentes da uma lulik representam a unidade social da comunidade. Por exemplo, os dois principais pilares são designados por “bei-feto//bei-mane” (o avó), as quatro colunas são designadas por “seki hat//tane hat” – os quatro assistentes do “bei-feto//bei-mane”; assim também as oito colunas curtas, “seki walu//tane walu”, todas reforçando a posição dos dois avós. Nota-se bem essa importância quando a morte de um mako’an (o sacerdote ritual do étnico tétum) é considerada como a queda do “kakuluk lor”, ou seja, um componente principal da uma lulik partiu e isso causa a insegurança da uma lulik. A morte da pessoa é considerada como “uma ulun kuak” (há alguns furos no telhado da casa), isto refere o afastamento da família ou inimizade da família. Esta comunidade acredita que o afastamento da família leva à morte muito cedo. Portanto, se houver alguns problemas entre eles, o melhor caminho é procurar meios para os resolver rapidamente.   

Em suma, estes códigos culturais são definidos como sistemas semióticos e neste contexto têm duplo objectivo: regular e controlar as manifestações da vida social e o comportamento individual ou colectivo. Os seres humanos, segundo Ivanov, não comunicam somente por meio de signos, como são em larga medida controlados por eles.

 

5.2. O símbolo ritual.

A uma lulik é uma parte principal do sistema ritual religioso do étnico tétum e tem a ver com a procissão de cerimónias ritualizadas e culturais, como o funeral (hakoi mate) e a celebração da morte depois de um ano (mutun mate), a inauguração da própria uma lulik. Estas cerimónias dão-nos a conhecer aspectos importantes para o aprofundamento do pensamento religioso do étnico tétum.

 

5.3. O símbolo social

 Normalmente a uma lulik reflecte a posição social dos seus habitantes. A comunidade do étnico tétum em Fohoren tem uma relação genealógica e historicamente muito íntima, porque foi influenciada pelo sistema de governação dos régulos nos séculos passados, que organizavam a comunidade em várias classes sociais. A tradição ritual “tatek meda” – normalmente celebrada na época da inauguração da uma lulik – exerce um papel importante como um elemento de formação da coesão social e legitimação do estatuto social da comunidade. Esta cerimónia é uma arte de enfeitar a mesa, feita por arroz misturado com carne do porco, e vê-se como um crocodilo a nadar. Ao comer, os clãs de classe social mais alta comem na parte da cabeça, alguns comem na parte do pescoço e outros na das pernas, conforme o estatuto social daquela comunidade. Toda esta comunidade sabe em que parte deve comer e cumprem as regras convencionais da cultura.

 

5.4. O símbolo do poder e religioso

O símbolo do poder está normalmente relacionado com a designação e a posição da uma lulik. O sistema da organização do clã no contexto do étnico tétum em Fohoren consiste em quatro modelos: uma lulik metan, uma lulik kanek, uma lulik lia na’in, e uma lulik ferik katuas, com a sua zona territorial própria chamada Nua dato. Na cerimónia do tatek meda, a comunidade de uma metan come na parte da cabeça, porque ele é designado por ukun na’in//badu na’in, baku na’in//dere na’in, (o dono do poder, e o senhor da ordem). O poder máximo desta comunidade tradicional é uma metan. Uma kanek é designada por funu na’in//ledo na’in, (o dono da batalha), é ele que tem autoridade para defender a segurança e a prosperidade da sua zona territorial nua dato. Uma ferik katuas é designado por sasiri na’in//dadula na’in, (ele tem autoridade para nomear o liurai «régulo» do étnico tétum em Fohoren). Uma lia na’in é designada por buik akitou//mauk nowa[1], ele assume um papel como o sacerdote ritual da comunidade ou mako’an e tem o poder de contar os contos que têm relação com a história de um suco (clã) ou com a origem de uma determinada comunidade. Outro papel importante do mako’an é a de manter a harmonia entre a comunidade e a natureza, e a comunidade e o kukun (o ancestral no mundo invisível). 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Nowa e Akitou são dois pássaros de adivinhadores das estações. O som do nowa simboliza a chegada da estação seca, o som da akitou simboliza o fim da estação seca e a chegada da estação chuva. 

publicado por manek_luan às 12:35
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